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quinta-feira, 19 de junho de 2014

O show de Truman



O show de Truman é um filme clássico e me pergunto por que nunca o tinha assistido até hoje. É impossível não ouvir falar sobre ele nas aulas de sociologia e filosofia, na internet e em qualquer crítica de filmes. No entanto, acredito que muita gente seja como eu: sente vontade de ver um filme e confirmar se ele é mesmo tão incrível como todos dizem, mas vive adiando. O fato é que simplesmente saber do que se trata o filme e qual é a mensagem que ele passa não é o suficiente, e vê-lo com os próprios olhos e tirar suas conclusões é uma experiência muito mais completa e incrível. 
E foi essa a experiência que tive quando, por um acaso, resolvi assistir a esse aclamado filme, que faz juz à fama que tem. Ele conta a história de Truman, um homem com uma vida perfeita: um emprego bom, uma esposa linda e gentil, uma casa confortável, vizinhos amigáveis e um melhor amigo companheiro e fiel. Ele vive seus dias com naturalidade: vai ao trabalho, passa um tempo em casa, sai com o amigo, faz coisas que um homem normalmente faria. Mas um dia descobre que todo o mundo ao seu redor não é o que parece ser. Truman participa de um programa de televisão muito famoso chamado "O show de Truman", sem saber, que é transmitido desde o seu nascimento. Seus pais, sua esposa, seus amigos, sua casa, a cidade inteira... Toda a sua vida é uma farsa. As pessoas ao seu redor são atores que apenas seguem um roteiro e se adptam de acordo com as escolhas e atitudes dele. Ele é a única pessoal real ali, e o astro do show. Mas a pergunta que não nos sai da cabeça é a seguinte: Truman realmente tem alguma escolha? Ou apenas a ilusão de livre arbítrio, quando na verdade tudo já é decidido por alguém mais poderoso e uma força maior? 


"Lá fora, a verdade é igual a do mundo que criei para você. As mesmas mentiras. As mesmas decepções."


Truman se cansa desse mundo falso e consegue alcançar a libertação. Acredito que se conhecesse o mundo real, talvez sua escolha tivesse sido diferente. Todos nós queremos liberdade. Queremos mais do que apenas existir: viver de verdade. Mas às vezes, mesmo estando livres de tudo o que poderia nos prender, continuamos simplesmente existindo. Nos prendemos pela nossa própria existência. Sentimos vontade de viajar, de conhecer lugares e pessoas novas, de mudar. Mas o que fazemos? Continuamos ao lado de pessoas que não amamos, em lugares que detestamos, com um trabalho que não nos satisfaz e uma porção de sonhos despedaçados. Sempre há algo que nos prende e nos mantém inertes. Não mudamos por vários motivos: medo, insegurança, comodismo... E por algo que nós nem mesmo sabemos explicar. Estamos presos da mesma maneira.
E como é dito em determinada parte do filme, o mundo doentio e podre não é o completamente controlado que Truman vive, mas o nosso mundo, o mundo real. Se todos nós tivessemos a escolha entre o mundo real e um mundo perfeito que gira todo ao nosso redor, quantas pessoas não escolheriam a segunda opção? Quantas pessoas não prefeririam viver em ilusão, simplesmente para não encarar as decepções da realidade?


"Aceitamos a realidade do mundo no qual estamos presentes."

O filme nos faz ter inúmeras reflexões, e a maior delas é sobre a nossa liberdade e até que ponto ela vai. De certa forma, todos vivemos presos a algo e, assim como Truman, temos a escolha de nos libertar. Mas isso requer muita força de vontade e sacrifícios; às vezes é preciso abandonar tudo o que pensávamos conhecer e ser o certo, em busca de algo maior. Ninguém consegue viver numa ilusão; se não a conhece, um dia acabará descobrindo a verdade. E se já tem consciência dela, jamais poderá se dizer verdadeiramente satisfeito. Estará sempre faltando algo a mais. 
Acredito que mesmo com todas as decepções e mentiras da realidade, ela sempre será a melhor escolha, se abrirmos os olhos, nos livrarmos de tudo aquilo que nos prende e trilharmos nossos próprios caminhos. Muitos de nós não somos livres de fato. Mas a ilusão de liberdade é aquilo que dá prazer à maioria de nós.
Afinal de contas, podemos ir aonde quisermos, dizer o que acharmos mais conveniente, largar o emprego,a faculdade, o conjugue, jogar tudo para o alto... E começar tudo de novo. Cometer os mesmos erros, obter as mais diferentes reações das pessoas (que também são livres, não atores com falas e ações programadas e mudam assim como nós) e mudar quantas vezes tivermos vontade. As nossas maiores mudanças acontecem por dentro. 
E mesmo que exista uma força maior que o impeça de jogar tudo para o alto e alcançar o seu ideal de liberdade (a família, os amigos, o medo ou até mesmo a própria consciência), essa possibilidade sempre estará lá.
Não podemos mudar todo o mundo. Mas, sempre que sentirmos vontade, podemos mudar o nosso mundo. 

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