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domingo, 22 de junho de 2014

Suicide Room


Todos os meus amigos têm me ouvido falar sem parar desse filme. Não é pra menos: desde que o assisti, não consigo mais tirá-lo da cabeça. O título original é Sala Samobójców e é um filme polonês, sendo chamado aqui no Brasil de O quarto do Suicídio. O filme não é muito conhecido por esses lados: não fui capaz de encontrar uma viva alma que o conhecesse, e poucas críticas na internet (que geralmente tem milhões de resultados para tudo). E é por isso que sinto quase que a obrigação de divulgá-lo a todos que conheço e mostrar esse trabalho incrível aos outros, e torcer para que eles se sintam tocados como eu. 

Dominik, um rapaz apaixonante.

Suicide Room conta a história de Dominik, um rapaz que tem tudo: é rico, bonito, mimado. Tem também um círculo de amigos e parece um rapaz normal e muito feliz. Mas esconde uma porção de coisas por detrás daquela franjinha no rosto: os pais são ausentes e egoístas, ele vive solitário, seus amigos não podem nem mesmo ser chamados de colegas e ele encara problemas com sua sexualidade. Tudo se desenvolve quando, numa festa, Dominik beija por aposta um dos seus supostos amigos e aquilo explode na internet. Ele é humilhado pelos colegas de escola e não pode contar nem mesmo com os pais. É então que se refugia no mundo virtual, num jogo online onde você cria seu personagem e interage com outras pessoas. Começa a participar de um grupo nomeado Suicide Room, onde todos são rejeitados e depressivos como ele, e se tornam sua nova família. Mas o relacionamento que tem com Sylwia ultrapassa as barreiras do virtual e os problemas de Dominik tomam dimensões ainda maiores, guiando-o a uma estrada sem volta.

Sylwia, com esse cabelo de dar inveja!

Eu simplesmente odeio cada um dos "amigos" de Dominik. São superficiais e vazios, brincam com os sentimentos dos outros como se fossem nada e sentem prazer na humilhação. Não se beija alguém para diminui-lo. Nem se brinca com a sexualidade dos outros. Muito menos provavelmente gosta de toda aquela situação, mas ataca o outro para esconder a sua própria. Quando mais precisava Dominik foi abandonado e apunhalado pelas costas. Não me admira que ele preferisse os amigos da internet, que eram sempre compreensivos e muito mais reais do que aquelas pessoas que eram feitas de carne e osso, mas sem alma. Isso particularmente mexe comigo porque já sofri por muitas situações semelhantes e sei como é se sentir traído, rejeitado e sempre intimidado por colegas de escola. A gente cresce, amadurece, supera. Mas eventualmente nosso subconsciente se manifesta e nos lembra dos nossos medos que deviam permanecer intocáveis. A pior parte do pesadelo é acordar e perceber que foi tudo real. 

Eu só vejo o pior lado de tudo...

Os pais de Dominik também merecem um tratamento especial na trama, já que são um dos principais fatores para a completa decadência do personagem. Eles são arrogantes, egoístas e preconceituosos. Preocupam-se mais com seus trabalhos do que com sua família; família essa que já está destruída, já que vivem traindo um ao outro e o filho é largado como mais uma decoração luxuosa da casa. Acreditam que é preciso dá-lo presentes materiais para satisfazê-lo, e que isso é o suficiente para que ele seja feliz. Quando descobrem que o filho é homossexual, acreditam ser brincadeira ou um capricho do menino. Mas o que mais me encanta é a evolução dos dois: mesmo com tantas falhas, tentam se redimir. Demora muito para cair a ficha, mas eles tentam consertar o erro que cometeram e mais do que tudo, mostram seus sentimentos que todo pai e mãe carregam lá no fundo: o de proteger o filho mais do que tudo. Eu acredito que pais que não se comovem com um sofrimento tão grande do filho simplesmente não tem humanidade. 
Você vive para dar aos outros o máximo que puder.

Um último aspecto que não pode ser deixado de lado é Sylwia. Mesmo aparecendo tão pouco no decorrer do filme, ela tem um papel importantíssimo no desenvolver dos acontecimentos. Sylwia é aquela salvadora de Dominik, mas ao mesmo tempo a responsável por levá-lo direto ao fundo do poço. É aquela boca que ao mesmo tempo que beija, escarra. No caso, não acho que nenhuma das atitudes dela tenha sido planejada: tudo foi obra de um infeliz destino. Sylwia apresenta à Dominik o Suicide Room e um novo mundo, onde nenhum deles é humilhado, perseguido e rejeitado. Ali eles podem ser verdadeiros e todos compartilham dos mesmos interesses. Mais um fato contraditório, agora não só sobre Sylwia, mas sobre todos os outros membros da Suicide Room: eles viviam falando sobre a morte e como a almejavam, mas sinceramente, nenhuma daquelas pessoas realmente queria morrer. Nenhum deles tinha coragem de fazer algo de fato. Prova disso é quando a mãe de Dominik os encontra e dá a notícia; todos saem da sala, um por um, fugindo do inevitável. Sylwia não era diferente: se quisesse se matar, já o teria feito. Eu acredito que uma das cenas mais fortes do filme (além da briga dos pais e Dominik finalmente saindo do quarto) é quando Sylwia percebe que perdeu Dominik e chora em agonia. Mesmo que esteja sentindo tanta dor, Dominik deixou-a um presente. A dor deixada por ele é capaz não só de acabar com a apatia dela, mas também de fazê-la se sentir viva.

Você realmente quer se matar? Como você pode desistir da coisa mais preciosa que você tem?

Dominik e Sylwia são um casal adorável, mesmo que nunca tenham ficado juntos de fato. Eles simplesmente eram para ser. E é triste que tenham se conhecido em tempos tão errados, em horas erradas, em locais errados... Talvez tudo tivesse dado certo numa outra vida. 

A realidade te machuca porque você é sensível.

Esse filme é tão significativo para mim não só porque trata de um assunto triste e polêmico como suicídio e depressão, mas porque faz com que eu me identifique. Eu não sou uma suicida, e não tenho nenhum diagnóstico de depressão. Mas sei como é se sentir deslocado, como se não houvesse nenhum lugar no mundo a que pertencer. Sei como é sentir que ninguém pode salvá-lo de si mesmo. Desejar ser outra pessoa, mas não poder mudar quem realmente é. Sofrer por tudo e por nada. Se machucar por não ver o mundo como todas as outras pessoas vêem, e chegar a um ponto de que nada mais parece fazer sentido. Entristecer-se porque nenhum de seus amigos e familiares merecem isso; porque você supostamente tem uma vida perfeita, mas sempre falta algo. Ser capaz de sentir apenas tristeza e dor, e nada mais. E sei mais do que tudo como é querer estar morto, mas amar demais a vida para fazer qualquer coisa. E esperar sempre que as coisas melhorem, até que mais alguns de seus sonhos sejam despedaçados. Algumas pessoas são sensíveis demais; sensíveis a tudo. E elas geralmente se escondem por detrás de máscaras: um sorriso brilhante, apatia ou um coração de pedra. Elas não querem ajuda, porque não podem ajudadas. Porque elas se sentem absurdas nessa vida e, mais ou cedo ou mais tarde, serão massacradas pelo mundo. 

Tudo o que você precisa está dentro de você. Você não precisa de ninguém. 

Depois de assistir esse filme, não derramei uma só lágrima. Mas estava chorando por dentro. Dormi com um peso no coração, mas não acho que a experiência tenha sido desagradável. Sentia a dor de Dominik, de Sylwia, a minha... A do mundo inteiro. Quando um filme é capaz de mexer conosco assim, ele não pode ser nada além de excelente.

A soundtrack maravilhosa do filme. 

Você está com medo?

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