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quarta-feira, 9 de julho de 2014

Desperation


Desperation é um filme estadunidense de 2006 inspirado num dos contos do consagrado Stephen King. Pelo nome do filme e o nome do escritor, já é possível imaginar o gênero, certo? Stephen King é indiscutivelmente um dos melhores escritores de terror de todos os tempos, e provavelmente o melhor da atualidade. É especialista em contos (assim como meu amado Poe) e possui inúmeros. Eu, como fã, admito não ter conseguido ler nem metade de suas obras (porque realmente são muitas, e o tempo é pouco). Tenho alguns livros dele, em em sua maioria edições de bolso e coletânias de alguns desses contos tão bacanas. Sou suspeita para falar: Stephen King é um dos meus escritores preferidos e tudo escrito por ele me agrada. Principalmente porque amo terror e sei como é um gênero difícil de ser escrito, mas ele o faz incrivelmente bem. É preciso dosar o suspense, o mistério, o medo, o romance (se o tiver) e todos os outros elementos. E eu particularmente aprecio aqueles contos que tem uma grande reviravolta no final. Por serem curtinhos, gosto quando eles passam o tempo inteiro apontando para algo e no final somos surpreendidos. Deve ser por isso que gosto tanto dos contos de Poe, ou de suspense em geral.

 Os personagens principais

Mas voltando ao filme, essa não é a primeira obra do escritor que foi adaptada ao cinema e deu muito certo. Existem outros filmes consagrados como O iluminado It, entre outros. Desperation conta a história de uma cidadezinha com o mesmo nome no estado de Nevada. A cidade teve seus dias de glória devido à exploração de uma mina, com americanos e chineses, em busca de preciosidades. Embora as lendas locais dissessem que as duas raças viviam ali em harmonia, a verdade era a mesma que em quase todos os lugares: os chineses eram explorados pelos brancos para trabalhar nas minas de maneira indigente e desumana. Mas um desabamento terrível fechou a mina de vez e causou a morte de muitas pessoas, embora ninguém soubesse ao certo o que o ocasionou. Depois de anos, a mina subitamente foi reaberta e com ela, "algo" misterioso também ressurgiu dos escombros. 
Tudo começa com o xerife Collie, um típico policial nos Estados Unidos com aquele uniforme com direito a chapéu e tudo. De início não há nada de errado com ele, com exceção à sua excentricidade. Ele para um casal de carro numa estrada deserta e faz as perguntas de rotina de um policial, como verificar os documentos do carro e da pessoa. O casal se trata de um homem que pegou o carro da irmã emprestado, e sua esposa, Mary, ambos querendo retornar à cidade onde vivem, New York. Mas quando vai verificar o porta malas, o xerife acaba encontrando um saquinho de drogas com uma carinha feliz desenhada. Então leva os dois presos por porte de drogas. 

Collie em uma de suas cenas hilárias.

Depois e antes disso, Collie ainda recolhe outras pessoas: um veterinário da cidade que cuidava de seus cachorros, um homem velho e alcoolatra; uma família inteira que viajava num trailer, o pai, a mãe, a irmãzinha e o menino David; o escritor especialista em Vietnã e muito arrogante. Ainda há personagens que entram mais tarde na trama, como Steve e Cynthia, que acabam entrando na história de supetão, mas são essenciais para o desenrolar.
Alguns pontos merecem destaque: primeiramente, o saquinho de drogas com a carinha feliz. Esse mesmo pacote é encontrado nos carros de todas as vítimas, exatamente do mesmo jeito, e com aquela carinha que, apesar de ser feliz, acaba soando muito macabra. Há também o destaque para o xerife, que é o personagem mais marcante do filme inteiro. É estranho porque a polícia geralmente é aquela responsável por nos trazer segurança e é inevitável que as tratemos com respeito; às vezes sentimos até medo, de fazer algo errado, desrespeitá-los e ir em cana. Quando o policial e o bandido são a mesma pessoa, é um choque. Mesmo que hoje em dia existam casos hediondos de policiais que assassinam, roubam e cometem diversos crimes, a polícia ainda é um símbolo de segurança para a maior parte das pessoas. Então de repente ser jogado na parte de trás do carro de um policial e perceber que ele não é assim tão bonzinho... É um choque. Mas Collie dá sinais de insanidade desde o primeiro momento. É interessante notar como os machucados e cicatrizes vão surgindo em seu rosto no decorrer do filme. E há uma palavra que ele diz sempre, "Tak", que inicialmente parece só um tique, mas se mostra ser algo muito mais importante e complexo no decorrer do filme. Eu diria que Tak é a chave para tudo. 

 Deus é cruel. Prova disso é que às vezes ele nos deixa vivos.

E por fim, o último destaque é o menino David. Uma criança com mente e atitudes de adulto, que se porta completamente bem numa situação tão traumática e nunca perde as esperanças. Ele é constantemente ridicularizado e questionado no filme por rezar e pedir ajuda a Deus. As pessoas, desesperançosas e decepcionadas com o mundo cruel, acreditavam que Deus não existia ou que Deus não se importava. Mas David continuou pedindo por sua ajuda até o fim e talvez esse tenha sido o fator principal para que ele tivesse as ideias mais brilhantes e solucionasse aquele mistério. 
O filme não é apenas um clássico de terror (com mocinhos, vilões, sobrenatural). É um clássico de terror com uma história completa e muito bem elaborada (nada parecido com as matanças sem sentido dos filmes de terror atuais), com personagens variados e que representam várias figuras da humanidade (o covarde, o que tem fé, o que é cético) e principalmente, incita nas pessoas a dúvida e questões de grande complexidade, como a crença em Deus e tudo o que ele pode ou não ser. Um filme brilhante!

(Para quem se interessou, procure também a obra original. Vale muito a pena!)

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