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sexta-feira, 11 de julho de 2014

Sobre suicídio, tristeza e felicidade

A postagem de hoje é um pouco diferente. Venho falando sobre música, filmes, séries e qualquer outra coisa que me interesse e que eu tenha algo a dizer. Sempre dou minha opinião pessoal sobre qualquer assunto, mas não me venho dedicando a opiniões sobre assuntos mais profundos e de forma direta. As pessoas que me conhecem sabem que a coisa que mais gosto de fazer é escrever. Escrevo romances, contos e às vezes até mesmo arrisco na poesia. Escrevo gêneros que vão desde romance até terror, de tudo um pouco. De qualquer forma, a partir de hoje começarei a postar textos e trechos dos meus romances que me agradem. Nós sempre ficamos com medo de expor um lado muito pessoal e sensível, mas às vezes é necessário e não faz mal algum.Também desenterrarei alguns textinhos e poemas do meu antigo tumblr, que eu particularmente adoro. Mas voltando especificamente à postagem de hoje, os trechos abaixo foram retirados de uma história chamada "Você", escrita por mim, mas infelizmente ainda não finalizada. 
É sobre a história de uma garota, Nina, que vê seu mundo virar de cabeça para baixo quando sua melhor amiga, Iris, comete suicídio. Nina passa por todos os estágios: negação, raiva, aceitação. Depois de algum tempo trancada em seu quarto e experimentando as mais diversas emoções e conflitos internos, ela acaba recebendo uma carta assinada como a falecida Iris. É a partir daí que as coisas mudam ainda mais.
Nina e Iris são extremos tirados da minha própria personalidade. Uma é frágil e sensível demais, tanto que não pôde aguentar o peso do mundo sem tirar a própria vida. Outra é forte e superficial, fechando os olhos para todos os problemas à sua volta e buscando ao máximo aproveitar a vida. No final, as duas acabam se convertendo na mesma coisa. Iris mostra a Nina um segredo que acaba mudando sua vida para sempre. Esse segredo nada mais é do que sua própria alma, seu modo de ver o mundo e a vida, e como as coisas às vezes parecem nos guiar ao destino mais obscuro. 


Toda a minha vida é sobre você. Você nasceu, você cresceu, você morreu. Você bateu na minha porta, você me ofereceu uma mão amiga, você dividiu o mundo comigo. Você me apoiou, você torceu por mim, você me consolou. Você me amou quando eu menos merecia... Porque sabia que era quando eu mais precisava. Você sorriu, mesmo que quisesse tanto chorar.  Você ficou em silêncio, mesmo que sua mente gritasse cada vez mais alto. Você segurou meu coração com as duas mãos, mesmo que o seu estivesse quebrado.  Você esteve pendurada por uma corda por tempo demais. Deve ter sido horrível ficar ali, entre a terra e o céu. Você jamais conseguiria alcançar qualquer um dos dois. Você sucumbiu à fraqueza. Você despedaçou todos os meus sonhos. Você destruiu minha vida. Você foi embora. Você fez com que eu jamais fosse feliz novamente. Você é a razão de todo o meu ódio. Você me matou. Você sempre foi forte, lá no fundo. Você me fez abrir os olhos pela primeira vez. Você me mudou completamente. Você ainda está em todo o lugar que eu olho. Seus cabelos, seus olhos, seu cheiro, sua voz. Você merecia ser feliz. Você é todo o amor que restou no mundo. Você é a única pessoa capaz de me trazer de volta à vida. Tudo é sobre você. Sempre foi, sempre será. Meus pensamentos, meus sonhos, minhas escolhas, meus passos... Essa história não é sobre mim. É sobre você.


Suicídio. É uma palavra forte, não acha? E como uma palavrinha de oito letras pode representar tanta coisa? Durante muito tempo a mínima menção a ela me fazia estremecer dos pés a cabeça e ter ânsias de vômito. Agora posso até mesmo discorrer sobre ela e refletir sobre o que antes minha ignorância me impedia de fazê-lo. Eu costumava pensar uma porção de coisas sobre o assunto. Todas elas remetiam a algo em comum: repúdio. Eu acreditava que os suicidas eram apenas pessoas mimadas e dramáticas que não sabiam aguentar a vida como era. Que sofriam por qualquer coisa, ou por nada, e imploravam por atenção. Eles eram idiotas egoístas que não tinham um pingo de consideração por aqueles que os amavam, tampouco por si mesmos. Inconsequentes que jogavam toda uma vida fora por conta de alguns poucos momentos. Não estavam atingindo a si mesmos, como costumavam pensar, mas apenas entregando um fardo eterno de tristeza e sofrimento aos seus entes queridos. Às vezes era essa a intenção: vingança. Mas valia mesmo a pena abrir mão da própria vida? O bem mais valioso que uma pessoa poderia ter?  Costumava pensar o mesmo sobre as pessoas depressivas em geral. Depressão para mim sempre foi o nome que davam àqueles que não tinham problemas de verdade e se lamentavam por qualquer coisinha que os incomodasse. Preguiçosos que não tinham sequer coragem de correr atrás de seus ideais e viviam reclamando de tudo. Derrotados. Se tudo isso não fosse fraqueza e frescura, do que mais poderia ser chamado? Eu não só tinha essas opiniões, como sentia necessidade de divulgá-las e partilhá-las sempre que possível. A maioria esmagadora concordava comigo. As exceções eram aquelas pessoas que já tinham sofrido algo parecido, e já estiveram no inferno em terra. Eu não sei quantas pessoas magoei por dizer cada uma dessas coisas, ou coisas ainda piores, mas talvez nunca fique sabendo. As pessoas costumavam achar que eu não passava de uma idiota. Quando eu dizia coisas do tipo, eu as dava certeza. Há algo que eu sempre pensava quando alguém vinha reclamar de seus problemas comigo. Há tantas pessoas em situações piores que a sua, e não reclamam nem um pouco. Pessoas em situações tenebrosas que são felizes e querem mais do que tudo viver. Então por que alguém saudável e que tem tudo desejaria perder a vida? Pensar sobre esses argumentos agora me faz sentir nojo. Primeiro porque aqueles que estão em situação crítica e à beira da morte estão apenas exercendo seu instinto de sobrevivência. Quando a morte é iminente, a maior parte das pessoas quer mais do que nunca viver. Mas que tipo de pessoa prefere viver em eterno sofrimento? Isso sequer pode ser chamado de vida? Sempre vão existir pessoas com vida piores e melhores que a sua. Focar-se em situações desoladoras para se sentir melhor com a própria vida é repugnante e uma idiotice. Isso agora só me deixa ainda mais triste, sabendo que há sofrimento em qualquer parte do mundo. Pessoas felizes e melhores do que eu sempre serão uma forma de me motivar e pensar que mesmo que eu não esteja alegre, alguém no mundo está. Alguém sortudo. Mas como todas as outras coisas na vida, nós só aprendemos quando vivemos na própria pele. Todos os meus conceitos sobre essa palavrinha mudaram completamente quando tive essa desagradável experiência. 



Às vezes nós não podemos ser exatamente quem queremos ser. Eu aprendi isso há um tempo atrás. Até mesmo uma idiota como eu sabia. Por que você não se deu conta? Se eu pudesse sequer imaginar, teria dito a você. Teria dito que você podia muito bem ser feliz. Mas você estava muito ocupada morrendo. Agora eu nem mesmo sei quem quero realmente ser. Uma médica? Modelo? Dona de casa? Garçonete? Ou uma garota que passa a vida inteira trancada no próprio quarto? Eu almejo uma única coisa agora. Não tenho pretensões quanto a ser feliz. A felicidade não é algo que exista concretamente para mim. Acredito que seja feita de momentos prazerosos, mas assim que encontramos um obstáculo e caímos, somos invadidos pela dor novamente. Ninguém é feliz o tempo inteiro. E a felicidade não pode ser uma única coisa. Eu acredito que se pudesse resumi-la, diria que é um estado de espírito. Não se pode ser feliz, mas estar feliz. Um estado é naturalmente algo temporário e passageiro, assim como todas as nossas emoções. Mas isso não seria alegria, ao invés de felicidade? Então, o que é essa coisa que todo mundo procura tanto? Eu não acredito que ninguém vivo tenha conseguido encontrá-la plenamente. Assim como todas as outras coisas da vida, assim que alcançada ela nos escapa por entre os dedos. Nada pode ser para sempre. É por isso que eu não mais almejo ser feliz. A única coisa que quero é não mais ser triste.


Talvez fosse minha escolha todo esse tempo. Eu podia continuar vivendo daquela maneira, acreditando ser feliz, e fechar os olhos pela última vez sem nunca tê-los aberto de verdade. Ou eu poderia mudar tudo.


Eu descobri que estava viva através da dor.

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