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sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Amores platônicos [Texto]

A minha vida inteira me perseguiram. Uma pessoa linda, brilhante e diferente de tudo o que eu já conheci. Uma pessoa que, assim como as outras, era incapaz de me tirar do meu mundinho fechado. Mas entrava nele e o fazia ainda mais fantasioso. Uma pessoa capaz de invadir meus pensamentos, meus sonhos e minhas esperanças mais profundas e escondidas. Mas uma pessoa que eu nunca poderia ter. Uma pessoa longe, e nesse caso a distância física é infinitamente melhor. Não há nada mais doloroso do que estar há milhas de distância de alguém que passa ao seu lado todos os dias. Uma pessoa que já pertencia a outra. Uma pessoa que não pertencia a ninguém. Uma pessoa que nunca passaria de um doce sonho. Esses rostos eventualmente apareciam em meus sonhos. Sonhos que não tinham nada demais, mas eram intensos a ponto de encher minha mente de teorias malucas e meu coração de sentimentos reprimidos. Já perdi a conta de quantas vezes isso já aconteceu. Chega a ser inexplicável: às vezes não sabemos o nome, de onde veio ou para onde vai, ou vemos aquela pessoa uma única vez na vida. É o suficiente para deixar uma marca muito forte. Seja por uma personalidade envolvente, um olhar sincero e profundo, ou simplesmente a sensação que aquela pessoa nos dá simplesmente por sua existência. Algumas pessoas significam muito mais do que o habitual; representam liberdade, alegria, perseverança... São capazes de despertar os mais diferentes sentimentos em nosso coração. Mas às vezes nada disso acontece; não há motivo algum. É como se víssemos algo que ninguém mais pudesse ver, e aquilo nos encanta. Por mais romântico que pareça, às vezes nos apaixonamos por almas. Mas isso dói demais. Amores platônicos nunca darão certo, e essa é a verdade nua e crua. Às vezes nós até nos recusamos a torná-los reais; o que os deixa tão mágicos é justamente o fato de que nunca irá acontecer. É um sonho que já nasce morto. É uma esperança irracional e pessimista, mas que a gente alimenta por pura ilusão ou por masoquismo. Mas essa dor não traz prazer nenhum. A melhor solução é esmagá-los. Sufocá-los antes mesmo que possam tomar forma. Fingir que não existem. Os amores platônicos se alimentam de nossas ilusões mais doces e infantis, que são massacradas facilmente com um pouco de pensamento racional. O amor platônico parece ser o único tipo de amor capaz de chegar até mim. Mas eu já desisti. Todas as fantasias são doces, mas tornam-se amargas quando tocadas pelo mínimo de realidade. Bem, eu acho que não estava realmente apaixonada por cada uma daquelas pessoas. Mas apaixonada pela ilusão que me traziam, e pela memória que tinha delas em minha mente. Memória essa que também não existia. Tudo era inventado e irreal. E não era justo. Não era justo comigo, por ingerir um veneno fantasiado de afrodisíaco. Nem justo com aqueles a quem minha paixão era direcionada; eu usava suas imagens sem permissão. Eles nunca foram nem nunca seriam nada do que eu jamais imaginei. Todos saíam prejudicados, de uma forma ou de outra. E é por isso que se eu te vir algum dia desses, eu vou virar o rosto. Vou fingir que você não existe. Vou fingir que está morto. Mais uma ilusão, mas essa não me machuca tanto. Até me traz conforto. Vou fechar os olhos pra sua beleza física, que encanta tanto minha visão. Mas, principalmente, vou fechar meus olhos internos e ignorar a beleza invisível que faz de você um ser que meche tanto comigo, mesmo que provavelmente nunca passemos de dois desconhecidos. E aí, então, eu vou sorrir. Desse veneno afrodisíaco... Eu não preciso mais. 

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