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domingo, 1 de maio de 2016

Life is strange [Game]


Depois de uma considerável sumida, retorno para falar sobre esse jogo incrível: Life is Strange. É um jogo disponível pra download, legendado em português e de fácil acesso. É relativamente curto: tem um total de cinco episódios. Eu demorei uns dois finais de semana para finalizá-lo, mas acredito que, dependendo do quão viciado você ficar, pode terminar ainda antes. 



Eu me viciei. O jogo também é de escolhas, tem um gráfico muito bacana e uma história que envolve romance, drama e suspense. Pra quem já assistiu ao filme Efeito Borboleta, é uma boa referência. Já dá pra entender do que se trata, não é?

A figura da borboleta também está envolvida, e é peça chave na trama.

A princípio, o jogo não parece passar de um drama adolescente (mesmo que só nos primeiros segundos). Max é uma jovem que retorna depois de anos para a cidade onde cresceu para ingressar numa escola onde um dos melhores cursos de fotografia do país é dado. Para melhorar a situação, é lá que leciona Mark Jefferson, um fotógrafo de grande renome e prestígio. Max passa a viver no dormitório da escola, onde consegue uma bolsa, e tenta se readaptar ao lugar que um dia deixou. Ela não é uma garota popular; é tímida, reservada, inteligente e constantemente tachada pelos colegas de hipster, por seu estilo desleixado e vintage. Ela é completamente apaixonada por fotografia e anda com sua câmera para todos os lados, retratando seu mundo através das lentes. Esse seu talento para a fotografia, o que o Sr Jefferson costuma chamar de dom, faz com que ela se afaste das pessoas, que a veem como distante, inalcançável. No entanto, Max consegue fazer alguns poucos amigos, como Kate e Warren

Linda Max.

A história de fato começa quando, num dia qualquer, estressada pela pressão de Jefferson para entrar num concurso de fotografia, Max acaba presenciando uma tragédia: Nathan, o rapaz mais popular e rico da escola, atira numa garota no banheiro por problemas com drogas e a mata. É aí que Max descobre a estranha e fascinante habilidade de manipular o tempo, e mudar o curso das coisas. Ela é capaz de voltar segundos ou minutos, mas mais tarde descobre que sua conexão com as fotos vai além do seu prazer de fotografar: as fotos permitem que ela volte até mesmo anos no tempo, no momento em que a fotografia foi registrada. Ela então reencontra a melhor amiga com quem não falava há anos, Chloe, e as duas tentam descobrir mais sobre esse dom e investigam o mistério do desaparecimento da estudante Rachel. Mas existe muito mais mistério em Arcadia Bay do que as duas podiam imaginar.

Essa foto é o máximo! 

Dentre todos os personagens que amo, gostaria de abordar três: Kate, Victoria e Nathan. Kate é uma amiga de Max, embora as duas não sejam assim tão próximas, e se afastam ainda mais com os acontecimentos recentes: Kate vai a uma festa do Vortex Club, o clube dos populares da escola, e é drogada. A nerd, religiosa e recatada acaba beijando várias pessoas e é filmada na festa, e esse vídeo cai em seguida na rede, fazendo com que a vida dela vire um verdadeiro inferno. Kate passa a sofrer bullying e não suporta a humilhação, os julgamentos e principalmente a dúvida: Nathan a drogou de fato? E o que ele fez com ela? Toda essa dor leva Kate a um buraco cada vez mais fundo e obscuro, e ninguém a sua volta parece perceber. É preciso que as coisas ganhem proporções trágicas para que todos compreendam, lamentem, mas às vezes é tarde demais. Sem Max, e principalmente sem seus poderes, a história de Kate seria tão trágica quanto a de muitas meninas no mundo real. Meninas que sofrem abusos, meninas que têm sua intimidade exposta, meninas que são alvos constantes de crueldades e humilhações. Esse é um dos meus preferidos aspectos do jogo: o lado obscuro da sociedade, que rejeita e maltrata alguns, até que eles se destruam. A pressão que é ainda mais forte entre os jovens, nas escolas e universidades. A vulnerabilidade das mulheres, que ainda sofrem todo o tipo de violência e não conseguem encontrar ajuda. E o mais interessante é a indiferença das pessoas, que veem claramente o próximo precisando de socorro, afundando-se cada vez mais, e só se preocupam com os próprios problemas. E quando as coisas realmente ficam ruins, insistem que não sabiam de nada. Mas as pessoas só veem o que querem ver, e não é nada fácil ajudar alguém que se encontra no limite. No entanto, um simples abraço e uma palavra amiga são capazes de salvar uma vida. 

A cena de Kate no telhado é uma das mais emocionantes do jogo. 

Victoria e Nathan são personagens parecidos, embora ao mesmo tempo muito diferentes. Ambos ricos, populares, no topo e com vidas aparentemente perfeitas. Não tão perfeitas assim. Victoria, apesar de bonita, rica e talentosa, é absurdamente insegura. Ela se sente melhor humilhando os outros e tem inveja de Max, que consegue reconhecimento naturalmente, enquanto ela tem que se esforçar tanto. Nathan é o herdeiro dos Prescott, que comandam toda a cidade, e cresceu sem nenhum afeto. O pai, de fato, o vê como herdeiro, e não filho. A cobrança em cima dele é gigantesca e ele sente que todas as pessoas ao seu redor o usam; Victoria é sua única amiga. Além disso, ele se envolve com as drogas e perde cada vez mais o controle da própria vida. Um ponto ainda mais obscuro desse personagem são seus problemas psicológicos, identificados por um profissional, mas negados pela família, que sentia vergonha de um filho "louco", e não tratados. Nathan não era apenas cruel, mas doente, e nunca recebeu a ajuda que merecia. Além disso, eles são personagens que ilustram muito bem que não existe essa dualidade entre bem e mal, mas que essas duas naturezas coexistem dentro de cada um de nós. Apesar de serem cruéis, ambos têm também seu lado vulnerável e um resquício de consciência. Não são de todo ruins e, visto de outros ângulos, são não só tiranos, mas também vítimas.

Victoria... Até que eu gosto de você!

Por fim, é obrigatório falar de Chloe, que é a verdadeira protagonista do jogo. Porque é tudo sobre ela, sempre. Não é para menos: Chloe é um ser humano incrível. Ela é mais que uma menina bonita; é mais que uma punk de cabelos azuis; é mais que a garota que perdeu o pai muito jovem, e sofre com os problemas familiares e a relação conturbada com o padrasto; é mais que uma rebelde sem causa. Chloe tem causa. Rachel não é a sua única causa. Mas sua própria vida. Sua vida que pareceu tomar os trilhos errados, sempre, e a infelicidade que sente. Chloe é incapaz de mudar o passado. É incapaz até mesmo de alterar o curso das coisas, o futuro, mas é capaz de mudar a maneira como encara tudo isso. É Max a responsável por ajudá-la a ver vida no mundo à sua volta. Dentro de si mesma. A acreditar em si, que ainda há solução, que ela vale a pena, e muito. Chloe é ousada, divertida, teimosa, tem uma personalidade muito forte. É ao mesmo tempo sentimental, frágil, carinhosa, aquela pessoa que, sendo sua amiga, te faz sentir no topo do mundo. Max se sentia assim, e eu também me senti enquanto jogava. Chloe é muito mais do que parece ser; tem uma história linda, um coração fantástico e é impossível não se afeiçoar pessoalmente à ela. 

Esse olhar é de matar... Socorro

Enfim, o jogo é incrível, emocionante e cheio de reflexões. Você precisa, basicamente, apenas andar e clicar (seja em objetos ou em respostas). Além disso, tem que decifrar alguns enigmas. As partes mais difíceis do jogo são juntar as pistas para o culpado e no episódio final, num dos devaneios de Max. As escolhas são difíceis e têm uma porção de consequências, o que pode te fazer gritar de raiva ou de arrependimento algumas vezes. O suspense é muito bem construído e, no final, a surpresa é de tirar o fôlego. Sai do óbvio, mesmo usando alguns clichês, e o resultado é muito bom. O romance é sutil e não é o foco do jogo, e o drama é tão bem trabalhado que eu poderia ter chorado o jogo inteiro. A escolha final é absurdamente difícil, e tão emocionante quanto. Uma excelente experiência!


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